O interesse

Sócrates estava em Pireu, com seu amigo Glauco. Ele faria orações para a deusa e assistiria às celebrações religiosas. No fim da tarde e das atividades, um menino veio correndo e, puxando Sócrates pela túnica, disse que seu amo, Polemarco, desejava ser visitado por ele. Os dois amigos atenderam o chamado. A casa era luxuosa. Céfalo, pai de Polemarco, alegrou-se ao ver Sócrates. Disse que a velhice o impedia de visitá-lo em Atenas, e que o amigo deveria vir mais frequentemente. Se por um lado a velhice impede a fruição dos prazeres corporais, por outro os próprios estímulos dessa espécie ficam amortecidos. Céfalo diz que agora o seu prazer é conversar, e um amante dos discursos, como Sócrates, era uma companhia maravilhosa. 

A conversa, relatada por Platão no início da República, segue agradável para ambos. A certa altura, Sócrates pergunta algo que sempre o deixou curioso, a respeito de Céfalo: a riqueza dele fora herdada ou obtida por ele mesmo, com os negócios? Céfalo diz que a sua fortuna ele herdou do avô, um homem riquíssimo. O avô passou-a para o pai de Céfalo. Este homem, contudo, era muito gastador, e despendeu muito do dinheiro. O que veio para Céfalo foi aumentado, ao longo dos anos. Mas ele não era um grande negociante, nem nada. Sócrates observou como Céfalo está sempre disponível para os seus amigos, caloroso na recepção. Alguém que tenha a cabeça tomada pela preocupação em ganhar dinheiro não olha para os outros com outro interesse que buscar mais rendimentos. Um negociante jamais perderia tempo com Sócrates, que era pobre. 

Sócrates diz a Céfalo que os homens que fizeram o próprio dinheiro amam sobretudo a esta coisa. E Céfalo não parece amar tanto assim o dinheiro, o que é uma característica de quem o herdou. Céfalo acha curiosa a observação do amigo, e a conversa deles prossegue.

Em 1842, o jovem Engels foi mandado à Inglaterra para dirigir uma das fábricas de linha da sua família. Engels desempenhou bem essa função, ao longo de 22 meses. Nas horas livres do trabalho, contudo, ele fazia o que mais o interessava: passar tempo junto dos operários. Os eventos da burguesia não o agradavam, nem a conversa sobre negócios o excitava. As dificuldades e a solidariedade no trabalho, os sonhos e as incertezas dos operários, e os de suas famílias, como eles viviam e quais os problemas de seus bairros: Engels procurou saber dessas coisas, mas não como um observador frio, e sim como um irmão. 

O resultado dessas conversas, e das consultas de Engels a livros, foi “A situação da classe trabalhadora da Inglaterra”. No prefácio deste livro, em 1845, dirigido aos leitores ingleses, Engels agradece a recepção amistosa dos operários. Ele diz concordar com eles, de que a classe dos burgueses lhes é opositora. Aos donos das fábricas só importa aumentar o faturamento. Engels chega a dizer que eles fazem um “comércio indireto de carne humana”. 

Como será escrito posteriormente por Marx, a produção de valor no capitalismo dá-se por meio do emprego das capacidades humanas. As máquinas são capital fixo, e se desgastam durante a produção. Elas transferem parte de si para as mercadorias. Da mesma forma, o trabalhador dá nacos da sua carne e do seu espírito para as mercadorias que produz. O dono dos meios de produção remunera o trabalhador pelo seu tempo de trabalho, um salário calculado de acordo com o que o trabalhador precisa para ir trabalhar no próximo dia. É um salário previsto para ser suficiente para reconstituir o corpo do trabalhador. Mas isso não importa para o dono da fábrica. Importa menos ainda a reconstituição da carne da massa dos operários, ou a falta de valor da carne dos homens que não conseguem trabalho, dos sem lugar. 

A economia capitalista não ocorre sem que haja uma exploração econômica da carne e dos espaços. Eles valem enquanto produtores de valor, que é algo abstrato, por ser equivalente a todos os valores produzidos para o mercado. Os homens e os lugares são olhados com olhos interesseiros, não interessados. 

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