O leitor de placas ou o amante das normas

O texto é uma arte –  nada de novo sobre isto. Mas há algo de novo sobre o leitor. Este, avesso ao ensino e com escolarização ruim, esquece que a literatura possui conceitos.

Mas como formamos este leitor típico?

Não acostumado com técnicas de leitura, ele abre espaço para outro tipo de formação que resulta no leitor de placas.

Sabemos que uma placa possui uma característica normativa antes que qualquer conceito. Todavia, há outro tipo de placa que adentrou ao meio televisivo. Esta não regula o trânsito, mas o comportamento humano. Falo da placa que admoestou o humor: em um programa de tv, a plateia é exposta a uma “orientação” de como agir e emitir reações, tipo: “aplaudam”, “vaiam”, etc.

Entretanto, não é apenas a plateia que está  diante deste adestrador comportamental. Em séries de tv vemos outro tipo de indicação: a sonora. Com a incapacidade do telespectador de rir da piada, por incompreensão ou pela qualidade da piada, temos uma risada de fundo. Ela  indica “podem rir!”. E assim, como hienas, o telespectador está habilitado à risada.

Carente de técnica e de educação, o leitor carrega este vício para sua análise textual.  Ele espera uma placa ao ler, enquanto deveria aprender a analisar conceitos e concatená-los.   Assim quando tenta desenvolver um comentário sobre o conceito, o que impera é o juízo normativo. Este sujeito busca, incessantemente, uma autoridade que levante a placa “pode continuar lendo” ou “ não leia”…

E quando  deseja criticar? Ele esquece que o juízo normativo é consequência de uma análise lógica sobre os conceitos e a descrição sobre os mesmos. E, atropelando tudo, ele procura a placa na leitura  e torna-se um leitor de placas crônico.

E, às vezes, não compreende nem a utilização do título e do subtítulo. Como placas podem ser “lidas” independentemente, sem relação entre ambas; ele acredita que o mesmo vale para estes elementos textuais. E, desta maneira, sua leitura não passa do subtítulo.   É um decodificador de signos e totalmente perdido quanto ao significado. Assim como faz diante da série na tv, ele faz também diante do texto: apenas imite som – não há interpretação possível.

Este leitor quer do texto uma autoridade que lhe dê a norma! E assim, destituído por completo de interpretação, atenta-se para elementos indicativos do texto desprezando conceitos. Sobre frases “mas quem é este para dizer sobre isto” acredita que está criticando.

Os fatos para o leitor de placas são apenas aplicações de normas, nada de interpretar. Toma a frase “contra fatos não há argumentos” como uma lei e não como um argumento. Julga que a filosofia é um debate, pois assim, no final de uma conversação, alguém levanta a placa para ele com a indicação do debatedor vencedor.  Irrita-se com aporias e paradoxos. E confunde, portanto, a erística, dos sofistas, com o método de refutação socrático.

Logo, diante de uma pessoa, o leitor crônico  nunca ouve os argumentos desta, mas só quer dela uma autoridade para seguir; ama a norma acima do conhecimento e da filosofia.

2 thoughts on “O leitor de placas ou o amante das normas

  1. “Contra fatos não há argumentos”, um argumento tomado como lei porque tomado como fato. Há um fetiche do fato, do realismo.

  2. São os adoradores do realismo. Acham que estão pronunciando mais que palavras quando falam “re-a-lis-mo”!

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