O peso da liberdade e a doçura da obediência (a quem?)

Certa vez, uma moça de 17 anos me disse que não havia mal em pagar o serviço de alguém dando-lhe casa e comida. O salário do trabalhador, no capitalismo, é feito com o pagamento em dinheiro. Esse dinheiro é usado pelo trabalhador para reproduzir sua força de trabalho. Então parece não haver mesmo problema com aquela ideia. Contudo, receber mercadorias, como casa e comida, não é o mesmo que ter dinheiro. Mercadorias são particulares e dinheiro é um universal. Quem tem dinheiro tem liberdade para adquirir qualquer mercadoria. O dinheiro iguala ontologicamente os homens, cria a universalidade humana. Além disso, a casa e a comida que se dá a alguém em troca de trabalho não são mercadorias, pois o trabalhador não pode dispensá-las, não pode vendê-las. Elas são apenas valor de uso, para quem as recebe, e talvez estejam apenas sobrando, para quem as dá. A mercadoria é, nesta relação, o trabalhador, escravizado. Da mesma forma como ele é posto numa casa, ele pode ser enviado para outra, ou seja, ser vendido. Ao fazer essa proposta, a moça pode ter imaginado duas coisas: a restrição do desejo, de um, e a generosidade submetedora, do outro.

Frederic Gros conta uma história que Ivan Karamazov conta a seu irmão Aliocha: em uma cidade na Espanha do século XVI, um dia aparece Jesus. O povo ergue a cabeça para vê-lo entrar. Jesus fala apenas com seus olhos e gestos, e é reconhecido por aqueles que, com uma centelha, revivem junto de sua esperança. Um velho inquisidor rapidamente manda prender aquele que apareceu para atrapalhar o domínio confortável da Igreja Católica. À noite, o velho vai à masmorra, falar a Jesus, que apenas escuta. A história seguinte está em São Mateus e em São Lucas: após os 40 dias no deserto, o Diabo aparece para Jesus. Pergunta-lhe porque Ele não transforma aquelas pedras em pães, para comer e distribuir entre o povo faminto. “Nem só de pão vive o homem”, responde Jesus. O Diabo, então chama-o para ver uma coisa em cima de um monte. Em cima, o Diabo diz para Jesus pular, pois os anjos lhe susterão e ele provará que é mesmo o filho de Deus. “Não testarei meu pai. Minha fé não depende de provas objetivas”. Por fim, o Diabo mostra todo aquele povo miserável e sem esperança, e diz que poderá conceder a Jesus o poder de governá-los. Jesus só precisaria ajoelhar-se para o Diabo. “Não sigo poder nenhum na terra. Sigo apenas ao meu pai celestial.” O inquisidor pergunta se Jesus lembra-se desses fatos.

As três recusas de Jesus significavam um ensinamento de liberdade que suplantava a capacidade de apreensão dos homens. A Igreja organiza o trabalho do próprio homem em transformar suas pedras em pães. Todo o fruto desse trabalho é tomado pela Igreja, que paga ao homem apenas uma pequena parte. O estômago fica satisfeito e o homem fica agradecido pela bondade do soberano. A função de administrar a produção e a sua justa distribuição é demais para os pobres homens. A Igreja também fornece todo o sistema de verdades para os homens, aquilo em que eles devem acreditar e o que devem fazer. Imagina se conseguiriam guiar-de sozinhos! Governar-se a si mesmos, então, é impossível! Os homens anseiam por um soberano que os enlace e comande, criando e conduzindo uma comunidade acolhedora. O inquisidor, um verdadeiro diabo realizado, diz que os homens são gratos por obedecerem, serem ensinados, alimentados e mandados.

O escravo tem a alma separada do seu corpo. A alma não está mais com ele, e no seu corpo age a alma do senhor. O senhor é o ser humano e o escravo é a coisa. Nos Estados modernos, a universalidade humana é a de todos os seres da espécie humana que possuem direitos à dignidade e a liberdades. Mesmo o trabalhador mais explorado não é uma coisa. De acordo com o direito, ele é dono e comanda o dinheiro que ele recebe como salário. Com Marx, contudo, sabemos que, no trabalho sob o capitalismo, o homem é reificado, perde suas qualidades e passa a ser estranho ao que ele mesmo produz. Sabemos também que no mercado, o homem é apenas um espectador da dança das mercadorias vivas, e obediente ao seu comando. O comando não é de um homem sobre outro, mas do morto sobre o vivo. O trabalhador é um corpo guiado pelo valor, o espírito que habita as mercadorias.

Jesus quis, para os homens, uma liberdade especial, vinda da fé introspectiva. A partir de sua alma, o homem relaciona-se com Deus. Essa é uma liberdade diante das necessidades e poderes terrenos, e uma aposta em algo além, sem comprovação e definição. O individuo laicizado vê a si próprio como origem, destinatário e participante de instituições relativas ao trabalho, à justiça e à verdade. Pode-se pensar que esta estrutura, na verdade, limita sua liberdade, como se sua capacidade de pensar, decidir e agir estivesse tutelada por ela. A liberdade dada pelo dinheiro também parece ser real, e aumentar junto dele, quantitativamente, mas o trabalhador nunca eleva-se de um certo patamar de liberdade financeira. E dentro desse patamar, a mercadoria o possui. O dono da produção, por sua vez, tem mais dinheiro para gastar. Mas ele não gasta, não sabe fazer isso, pois está preso à necessidade de fazer o valor circular. Sua alma também não está nele.

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