Os desajustados

Trasímaco, personagem da República, de Platão, tem uma definição de justiça que, à primeira vista, parece estranha: justiça é o benefício do mais forte. O texto de David Keyt, “Platão e a justiça”, diminui essa estranheza, ao lembrar do Estrangeiro de Atenas, personagem do livro As Leis, também do Platão. Segundo o Estrangeiro, as coisas justas são objeto de disputa nas cidades. Grupos brigam entre si pelo poder sobre uma cidade e, assim que um deles o alcança, pela força, estabelece as leis. As leis de uma cidade não decorrem da natureza das coisas, mas são relativas ao grupo mais forte. As leis expressam a justiça, as leis são estabelecidas pela força e, portanto, a justiça é a obediência à força. Isto vincula a justiça ao poder, mas o que vincula a justiça ao poderoso? Glaucon, outro personagem da República, afirma que a justiça não é algo que se busque por si mesmo, mas pelos seus resultados. Ser justo ou fazer o certo pode me trazer benefícios, e são eles que me interessam. A justiça, em si, não tem interesse. Como o acento está nos resultados da justiça, e não nela mesma, a injustiça pode ser feita, a depender dos seus resultados.

A justiça é o benefício do mais forte, o justo é aquele que obedece ao poderoso. No livro I, da República, Sócrates vinha investigando a natureza da justiça. Definir a justiça é a única coisa que permite avaliar as ações como justas ou injustas, mas o objetivo específico de Sócrates era examinar a alma dos seus concidadãos, incluindo os que se arvoram de serem justos. Com esse objetivo, Sócrates dialogou com Céfalo e com Polemarco. O terceiro interlocutor, Trasímaco, interrompeu o diálogo anterior e exigiu que o próprio Sócrates definisse a justiça ao invés de pedir essa definição das outras pessoas. Trasímaco falou que Sócrates usava a estratégia de não dar respostas, mas de apenas perguntar, para em seguida usar as respostas dos interlocutores contra eles mesmos. Trasímaco falou isso de forma rude e, quando, durante o diálogo, Sócrates fazia conclusões, Trasímaco dizia aceitá-las apenas para agradar a Sócrates. Trasímaco, como um amante do poder, não gosta da troca de razões. 

Atualmente, nossa ideia de justiça é a de que ela se obtém por consenso, não pela força. As leis não são naturais, não decorrem de um fundamento metafísico, os homens chegam a consensos contingentes sobre elas, empregando as melhores razões de que dispõem naquele momento. O elogio de Trasímaco à força, ao longo do diálogo, é uma defesa do poder tirânico e injusto sobre uma população, a quem ele considera justa ou ingênua. Ele os compara ao pastor que engorda as ovelhas em busca apenas do benefício próprio. Trasímaco considera realmente que o injusto ou o poderoso tirânico é virtuoso. Para se contrapor a ele, Sócrates fala do sábio e do bom, por exemplo um bom médico, que não se contrapõe a outro bom médico, mas se contrapõe ao mau médico. O bom e sábio não se contrapõem aos seus semelhantes, apenas aos seus contrários. O mau médico, por sua vez, contrapõe-se tanto ao bom médico quanto ao mau médico. O ignorante e malévolo se contrapõe a todos, seja seu semelhante ou o seu contrário. Dessa mesma forma é com o injusto, que se contrapõe a todos, seja justo ou injusto, diferentemente do justo, que apenas se contrapõe ao injusto. Há uma semelhança entre o justo, o bom e sábio, e entre o injusto, o malévolo e o ignorante. 

Sócrates ainda pergunta a Trasímaco se ele não considera que num grupo de injustos não é necessário ao menos um pouco de justiça, para que eles não se desentendam irremediavelmente. Trasímaco concorda com um pouco de justiça. A injustiça leva a disputas, e se ela está no poder, na cidade ou numa alma, haverá conflitos e rupturas. Banalizaram-se as injustiças que existem nas nossas cidades. Quem fala sobre elas, diz-se, é quem propaga ideologia de esquerda. Mas denunciar injustiças é fazer o contrário: é falar de problemas objetivos. Talvez seja melhor falarmos em desajustes sociais, para chamarmos atenção para algo que está errado. Os grupos urbanos não estão ajustados entre si, e a guerra é silenciosa ou declarada. O presidente brasileiro é injusto, ou melhor, desajustado, ao governar para si mesmo e sua família, ao invés de governar pelo país, pela população. Ele tenta mudar as leis, para impedir investigações criminais contra seus filhos. Trump não governou pela democracia, como bem apontou Schwarzenegger. Eles não trabalham para reduzir os desajustes na sociedade. Pelo contrário, eles buscam benefícios próprios e estimulam as saídas individuais. Bolsonaro é um exemplo de sucesso no ser desajustado. Os indivíduos pensam que eles mesmos devem se tornar poderosos, e se armam de notícias, para combater a própria família, no Natal. E também se cercam de milicianos, para guardar a própria rua contra o pobre revoltado, aquele que não banalizou os desajustes sociais. O indivíduo se sente seguro e, ao mesmo tempo, cativo da milícia ou de outro poderoso, na esquina. Ama e teme o poder, tem um desejo homoerótico pelo homem armado. Esse desejo era inconfessável, mas agora Bolsonaro mostrou como apresentar o “melhor amigo”. E o indivíduo, como o presidente, faz de conta que segue as leis do país, que ama o Brasil, mas na verdade, sempre que pode as burla. O desajustado sabe que é ignorante e malévolo, e que produz o próprio inferno e infelicidade. Ele não pode viver consigo mesmo.