Protestar na era digital

Vamos conversar sobre outra coisa. Política andou me dando nos nervos.

Pode ficar tranquilo, não é nada alienante.

Qual é o papel nosso que escreve, o seu que lê, e o de quem reproduz ?

Já parou para pensar isso ?

O que eu, você e eles devemos fazer ? Qual a nossa tarefa daqui para frente ?

Dado que tudo é reproduzível. Tudo virou copiável. Produzir algo é criar valor. Escrever é a produção. O que você anda escrevendo te ajuda ou te prejudica ? Muitas pessoas escrevem sem saber. Comentários no Facebook, twitter, youtube, etc. Você já se perguntou se vale a pena ?

Quando você comenta um vídeo no youtube, por exemplo, você gera valor. Você faz o vídeo subir, ganhar destaque na plataforma. Mesmo que seu feedback seja negativo.

Pouco importa o que você disse. Diversas vezes o criador não irá ler o que você disse. Ele faz ? Bem, se faz, é porque fica claro que você gerou valor. Ele comentar o seu comentário, gera outros comentários, portanto, mais valor.

Por vezes se discute nas redes sociais – quantas vezes levou para algo ? Eu não lembro uma discussão de internet que tenha levado para alguma coisa. Comparam a internet com a Ágora grega, essa comparação não funciona, pois na internet não se tem corpo. Na Ágora dizer coisas, discutir, ou afrontar como Sócrates e Diógenes fizeram, exige em primeiro lugar ter um corpo, ela existe um espaço geográfico da cidade, tem importância política, tudo que ali é dito tem alguma consequência no mundo.

Na internet não basta falar, ainda que muitos só façam isso. Quando você comenta, conversa, interage em uma rede social, em primeiro lugar você está fornecendo informações para uma plataforma capitalista. Uma coisa é falar de comunismo no Facebook, outra é por aí. Na internet, os likes, comentários, todos eles anônimos, vão amar você por falar de comunismo. A prática é bem diferente : muitos se entendiam, outros se afastam e muitos sequer ficam para te ouvir. 

A sala de aula é uma amostra disso. É muito bonito posar de intelectual na internet, na sala de aula é uma afronta. No YouTube é muito comum comentadores de política esbanjarem títulos de historiadores, sociólogos, filósofos, psicólogos e chegarem ao ponto de incluir cursos de EAD em meio das suas qualificações. O que eles dizem é bem diferente do que mostram : nenhum carinho pelo conhecimento, muitos deles tem alergia à academia e não raro vendem suas opiniões à terceiros.

Portanto, o que podemos concluir é que é perda de tempo escrever nas redes sociais, principalmente, se estivermos falando de temas sérios que precisam ter alguma consequência no mundo “real”.

Ninguém está fazendo oposição ao Bolsonaro escrevendo comentários em rede social, mas vai fazer oposição, pressionando seu deputado, partido ou você mesmo escrevendo num post crítico seu, que pode ou não, chegar em um político, mas pode influenciar as pessoas na sua volta. Protestos organizados pela internet tem mais força que os protestos feitos exclusivamente na internet. No primeiro a internet serve como megafone, amplifica a voz e reintroduz o corpo : “precisamos ir às ruas !!”. No segundo, a internet é tráfego, se usa da controvérsia da política para gerar discussões, logo, likes, dislikes, comentários, compartilhamento. Felipe Neto é exemplo disso, vocês realmente acham que ele acredita na metade do que ele fala ? Felipe Neto é uma empresa, precisamos lembrar disso. A grande mentira que ele nos conta é que ele ainda é uma pessoa, um alguém, Felipe Neto é uma marca. Isso explica porque esses últimos anos ele começou a dar pitacos em política, da mesma maneira que a Natura virou ativista LGBT+. Política em nome do consumo.

Favorecer Harry Potter e diminuir Brás Cubas tem o propósito único de gerar engajamento para si e seus associados. Essa “polêmica” do Felipe Neto não é diferente da “polêmica” da Coca com Pepsi. “É uma questão de opinião e cada um tem a sua” – no final do dia, a voz “sensata” vem te dizer isso.

Fica claro que só fazer seu vídeo, texto, comentário, não vai mudar o mundo. Vai fazer diferença quando você faz as coisas no mundo “real”.

Os neonazistas, se algum dia puderam ensinar alguma coisa, foi isso : nada adianta ser racista na internet, onde você é banido mesmo, por isso é importante ter políticos, manifestações, protestos e claro, cometer os crimes. A gente pode aprender com eles que não basta perder tempo na internet, é preciso pôr na prática o que acredita. Bolsonaro é a prova viva disso : não basta defender a bandidagem, é preciso ser bandido.

Nós da esquerda não fazemos essas coisas. Não estou dizendo que nós devemos nos tornar fascistas, mas aprender a lição : não basta militar na internet, até porque na internet, tudo que uma plataforma quer é o grito permanente. Você quer mudar alguma coisa ? Tente fazer no mundo “real” !! O que o Facebook, Youtube e o Twitter mais querem é que você passe sua tarde discutindo sem resolver coisa alguma.

Mais importante e isso é necessário : pressione seus políticos, partidos, amigos e etc. Isso a direita fez e a esquerda só ficou na primeira parte, lacrar na internet. Dê mais valor para as conversas corpo a corpo. Discutir feminismo com uma amiga sua, que tem um namorado abusivo, faz muito mais diferença do que discutir isso na internet.

Evite o máximo possível posts, seção de comentários e etc, dê mais valor para DMs, e-mails, etc. Devemos valorizar mais os protestos : desde o início da pandemia bolsonaristas protestam contra as medidas de isolamento – por que nós não poderíamos ter protestado contra o descaso do governo desde o início ? Claro, a pandemia dificulta muito, mas há maneiras de resolver isso, poderíamos usar cartazes nas nossas janelas, protestar em carreatas e etc. 

A internet deve funcionar como um megafone e não como uma última fronteira. O conhecimento deve ser espalhado em detrimento aos vídeos de opinião, professores e mestres devem ser levados mais em conta que os famosos com milhões de seguidores, devemos dar mais valor à discursos que gerem mais narrativas e ampliem o debate do que discussões lacradoras de certo ou errado. Debates acadêmicos devem acontecer e a internet pode funcionar como uma caixa de ressonância.

O papel de quem escreve é gerar ressonância, uma capaz de ressoar no mundo à nossa volta; quem lê deve ler para alimentar o corpo com bom conhecimento, usar a internet como ferramenta de acesso à livros, textos e até mesmo conversar com os intelectuais; O papel de quem reproduz é de agir como um cinema cult : amor aos clássicos, resgate do que foi esquecido.

 

Nada mais que isso !

Écrasez l’infâme!

 

Marlin Rose Jones